quarta-feira, 26 de maio de 2010

CONVIVENDO E APRENDENDO COM BEBÊS

O MUNDO ATRAVÉS DAS SENSAÇÕES E

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

As diferentes experiências, atividades e projetos na Classe Bebê surgem a partir dessa escuta e desse olhar atentos, recheados de afetividade e embasados pela teoria que buscamos ter, com vistas a dar significado às manifestações dos bebês e aos seus desejos de comunicação e intensa exploração do mundo ao seu redor. Os temas dos projetos nascem da leitura que realizamos de cada grupo e de cada criança em suas múltiplas linguagens. É preciso ouvir e ser empático, estando atento às formas de expressão dos bebês, às evolutivas estratégias cog­nitivas e interacionais que utilizam em seu processo de desenvolvimento e aprendizagem.

Foi assim que, durante o projeto Lendo o mundo através das sensações, o espaço físico foi sendo mo­dificado quando construímos com os bebês a Casa das Sensações, composta por diferentes materiais (bo­tões, retalhos de carpete, grama sintética, tecidos, plástico, papéis variados, plumas, botões, conchas, etc.). No Varal dos Cheiros e Sons, os bebês manipu­lavam guizos, chaves, colheres de pau, miçangas e experimentavam os cheiros dos saches de tule com cravo, canela, macela, perfume e talco infantil. 0 Tapete das Sensações, com diversas texturas, formas e sons, foi especialmente apreciado pelos bebês que exploravam papéis de ovos de

Páscoa que chamavam sua atenção pelas cores e pelo som que produziam. Assim, além de proporcionar experiências senso­riais, perceptivas e motoras, brincamos com eles de esconder, fizemos "chuvinha" e marchamos em cima, revelando a indissociabilidade entre aspectos sensoriais, motores, simbólicos e afetivos.

Outro projeto, entre os vários que construímos em parceria com as crianças da Classe Bebê, foi Quem tem medo de lobo mau?, o qual surgiu do fascínio evidencia­do pelos bebês pela figura do lobo depois que contamos a história de Chapeuzinho Vermelho utilizando fantoches. Esses personagens estavam sempre presentes em nossas tardes através das músicas, das histórias e, principal­mente, do imaginário de nossas crianças que "fugiam do lobo", escondendo-se em diferentes locais da sala.

Para enriquecer esse jogo simbólico, criamos um espaço na sala com a floresta do lobo e a casa da vovó. Esse ambiente, construído com o auxílio de todo o grupo e suas famílias, passou a ser o espaço mais utilizado pelos bebês em nossas tardes. É interessante salientar que, antes disso, este era um espaço utilizado para atividades motoras, com escorregar, saltar, escalar, correr, subir, descer e pular, pois se constitui num mezanino com escorregador, rampa e toquinha.

Durante esse projeto, confeccionamos a vovó com meia-calça, lã e tecido, dando concretude ao personagem. A vovó passeava com as crianças pela sala, pela “floresta”, mas “morava” na casinha que fizemos com tijolos confeccionados a partir de caixas de leite e pintados pelas crianças. Nossa vovó ganhou uma cadeira de balanço, um armário e uma cama bem quentinha – cenário rico em possibilidades simbólicas e reprodução interpretativa pelas crianças, que não se cansavam de se esconder dentro do armário, fugindo do lobo. Também construímos um lobo de feltro, que foi passear na casa das crianças. A cada semana, um bebê levava o personagem para sua casa. Junto com ele, seguia um livro que foi sendo construído pelas crianças e suas famílias. Desenhos, recortes, colagens e muita criatividade foram produzindo imagens e cenários que significavam – e eram significados – pelas crianças: ao manipular e interagir com o conteúdo desse universo simbólico, elas também brincavam com os seus medos.

Por fim, construímos a Chapeuzinho Vermelho, que passeou pela casa das crianças, trazendo em sua cestinha lanches deliciosos, feitos pelas famílias. A vovó também fez suas visitas para serem compartilhadas com todo o grupo, que se constituíam nas temáticas preferidas das crianças, ampliando nosso repertório para os momentos de contação de histórias.

Através dessa parceria entre escola e família, acreditamos que é possível desenvolver abordagens significativas de crescimento para os bebês, contextualizando nosso olhar e nossas práticas com suas experiências de vida e com a riqueza de seu potencial. Convivendo e aprendendo com as crianças da Classe Bebê, tentamos construir uma proposta educacional coerente com uma imagem rica desse pequeno ser humano que tanto nos ensina a ser gente grande.


Anete Esteves Sant’Anna, Hildair Garcia Camera e Márcia Elisa Valiati são professores da Educação infantil do Colégio João XXIII, de Porto Alegre.



1 comentário:

  1. Gostei muito da matéria. Parabéns! É importante que os educadores revisitem as múltiplas possibilidades da literatura em sala de aula.

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